“Fui enxotado do jornalismo porque fui cada vez mais ficando visceral. E as pessoas viscerais não são muito apreciadas. Se você tiver idéias próprias, precisa entender que vai encontrar continuamente caras fechadas, gente querendo questionar, diminuir você, ‘fazer compreender’ que você não tem nada a dizer, ou que deve evitar aquele fulano por que é louco, ou veado, ou um verme. Eles reduzem o mundo a umas poucas pessoas híbridas, monótonas, tediosas e ‘perfeitas’. E assim querem transformar você num merda.”
Cheguei cansada do meu “todo dia” e me pus a videar o que estava disponível na TV, e lá estava alguém de campanha eleitoral com o velho argumento da igualdade.
Igualdade...
Igualdade...
Como assim igual?
Igual como?
Qual o parâmetro pra se uniformizar algo ou alguém e considerá-lo igual?
Não que eu ache isso ruim, pelo contrário, entendo perfeitamente a boa intenção de alguns que a proclamam.
Na essência acho tudo muito bonito.
Mesmo assim, essa palavra não me soa confortável...
Acredito que muitas vezes essa tal igualdade significa imposição de valores, códigos... Enfim, disseminação da mesmice.
Ter o mesmo comportamento socioeconômico diante das diferenças, banalizá-las como algo menor não as iguala, mas sim, reproduz o que a humanidade sempre faz com as minorias, segregados e excluídos: o extermínio de suas peculiaridades.
Bom, já faz tempo que ando me sentindo em débito com vocês leitores e não é à toa. O fato é que pra escrever algo neste espaço preciso de algo que me impressione, cause indignação, ou mesmo curiosidade.
Como vocês podem perceber, não tem acontecido nada tão extraordinário a ponto de me despertar esse tesão de escrever.
Ando a sofrer da síndrome “Mais do Mesmo”. Sim, a crise é recorrente admito, mas confesso que nunca tinha persistido tanto tempo. Por isso resolvi escrever baseada no próprio desânimo e de quebra explicar o motivo da indiferença que me toca.
Há um tempo pensei em escrever sobre várias coisas, entre elas, sobre política, assunto que certamente da muito pano pra manga para alguns, o que nunca foi meu caso.
Então, você pode perguntar: Jornalista que não vê graça em política?
Respondo.
Não. Ultimamente, menos ainda, justamente por conta do “Mais do Mesmo”.
Explico.
Posso estar errada, mas, a política do país sempre teve uma mecânica muito previsível, um modo de ser que acaba refletindo em todo o resto.
Essa semana li um artigo que falava exatamente sobre essa mecânica.
O articulista dizia que a maioria da população brasileira é acomodada e gosta de levar vantagem em tudo.
De fato, a gente sempre pode presenciar uma situação que ilustra bem isso, seja quando um caminhão de carga tomba e é saqueado, em tentativas de suborno ao ter cometido uma infração, ou ainda em coisas mais simples como escarros nas ruas, os empurra-empurras nos transportes públicos, entre outros absurdos.
Na política a coisa não é diferente. Desvios de dinheiro, obras superfaturadas e etc.
Mas o que me chamou a atenção no artigo foi o autor dizer que a razão de tudo isso é o efeito espelho, ou seja, do ponto de vista dele a população é assim por que recebe o mau exemplo dos políticos.
Discordo.
Para mim, acontece justamente o contrário. Os políticos são reflexos de uma sociedade falida e não o contrário.
De qualquer forma, como disse no começo desse texto, isso não me causa um pingo de espanto, pois esse círculo vicioso não é de hoje e se reflete em todos os aspectos de nossas vidas.
Antes pensar nessas coisas me causava uma puta revolta, eu externava, debatia e gritava aos quatro cantos que não precisa ser assim, por que esse “Brazilian way of life” está na faculdade, no trabalho, em casa e tudo mais, não dá pra fugir.
Nunca deu resultado. E nós inconformados de plantão ainda levamos má fama.
Broxei.
Às vezes penso que acabei adquirindo essa doença que ataca a sociedade desde tempos imemoriais. E no patamar que estamos já nem adianta mais antídoto.
Nossa esperança reside apenas no desenvolvimento de uma vacina (que pode ser implantada nas escolas) pra proteger nossas crianças dessa síndrome alienadora.
Estava eu tranqüila em minha mesa, desfrutando alegremente de minha rotina estagiária, quando de repente surge à minha frente uma funcionária com um brilho estranho nos olhos, desses que costumam acompanhar uma ilustre descoberta.
Da forma abrupta em que abriu a porta e pelas veias saltadas em seu pescoço, não seria difícil presumir que ela diria:
- Finalmente descobri a Pedra Filosofal! Agora o universo será meu! Há Há Há... (Leia-se risada maligna).
Porém, no lugar desse devaneio imaginado pela minha mente fantasiosa surge uma pergunta:
-Alguém neste departamento come espinafre!?!
Todos permaneceram inertes, reticentes, imaginando qual seria o motivo dessa estranha interrogação.
Bom, pra quebrar o gelo, ou por curiosidade mesmo, arrisquei levantar a mão, acompanhada por outra funcionária que também admitiu consumir a verdura.
Mas, qual foi nossa surpresa quando recebemos um olhar de reprovação seguido de um:
-Geeenteee! Então eu tenho uma coisa pra contar pra vocês!
Seriamos suspeitas de algum crime?
Eloquente ela prosseguiu:
- O espinafre é nocivo! Entrem na internet! Procurem no google e vai aparecer uma lista de sites falando dos malefícios dessa verdura.
- E quais são? Arrisquei.
- Ele tem um ácido “sei lá eu o que” (Perdão leitores, não me lembro nome) prejudicial à saúde, além disso, absorve todo o cálcio do corpo. Existem até pesquisas realizadas pela USP. O espinafre é um vilão! Não tem nada a ver com a força do Popeye! (Tá, mas isso a gente já sabia).
Fiquei em silêncio por alguns instantes sem saber o que pensar...
Oh Deus! Todos esses anos de espinafre com ovos mexidos preparados com carinho pela mamãe me fizeram mal?
Teria minha mãe feito parte de algum complô para envenenar-me?
Certamente não. Ou se tentou, não obteve êxito.
Quando a funcionária se foi, certamente para anunciar a “boa nova” ao restante da empresa, tentei puxar pela memória a morte de algum conhecido, ou personagem televisiva envenenado pela verdura. Talvez algum artigo, ou reportagem...
Não me lembrei de nada.
É claro que depois pesquisei sobre o assunto e tive acesso a algumas pesquisas e realmente existem teses sobre os efeitos nocivos do espinafre (eu disse teses).
Por ora, a recomendação dos especialistas é que a verdura seja jogada em água fervente e que seu suco verde seja descartado antes do consumo, pois neste líquido está o tal ácido supostamente nocivo.
O que eu ainda não entendi é o motivo da reação alarmante.
Ora, ora... Se fossemos engatar uma campanha para boicotar o espinafre, também teríamos que boicotar a salsicha, os refrigerantes, as frituras, fast foods e todas as outras coisas que já sabemos fazer mal (sem precisar de teses).
E os banhos quentes de mais de vinte minutos?
E a novela das nove?
Tá viajei.
Mas eu ainda sigo a máxima de que tudo em excesso faz mal.
Alguém aqui arriscaria comer uma tonelada de espinafre por falta de ferro no sangue?
Acho que não.
Aliás, já está na hora da janta e o que teremos?
Ovos?
Não, não. Eles têm colesterol e também a tal da Salmonela.
Humm...Talvez um peixinho grelhado?
Não, estudos revelam que os peixes têm muitas toxinas.
Frango?
Mas eles têm hormônios!
Espinafres?
Acho que vou tomar um banho quente de vinte minutos e ir dormir.
Qualquer pessoa que freqüente grandes livrarias, principalmente essas de Shopping Center, pode perceber que de uns tempos pra cá estão equipadas com café, áreas pra leitura, salas de projeção, cybers, etc.
Uma gama enorme de produtos e uma multidão de gente passeando.
Isso quer dizer que as pessoas estão lendo mais?
Ou tudo isso faz parte da lógica de mercado?
As duas coisas?
Será que dessa forma as pessoas que passeiam pela loja sentem-se mais confortáveis e tentadas a comprar algo?
Na verdade não sei qual o motivo e, confesso não me importar muito.
O fato é que não sinto a mínima vontade de procurar um livro em meio a fileiras intermináveis de seções e prateleiras, onde quase sempre as atendentes não sabem nada sobre um autor, gênero, ou lançamento, tornando impossíveis recomendações ou indicações deixando os clientes totalmente perdidos.
Sinto-me em um hipermercado.
Bate-me a nostalgia de uma época não vivida (já nasci na geração mega store). Época das pequenas e aconchegantes livrarias, com poucos e bons títulos. Onde provavelmente o proprietário realmente apreciasse literatura e fizesse boas recomendações.
Ainda se pode encontrar essa atmosfera em alguns sebos e algumas poucas lojas específicas sobre quadrinhos e outros gêneros...
Enfim, sinto saudade de uma pequena e boa livraria.